terça-feira, 30 de junho de 2009

O filtro do ouvido


Será impressão minha, ou ninguém ouve ninguém?Posso falar, explicar, desenvolver, esmiuçar... Ninguém escuta. Será um fenômeno de surdez coletiva?

Não... Inclino-me mais a acreditar que se trata de um mecanismo de replicação. As pessoas escutam, sim. Mas o ouvido tem um filtro, que só permite entrar na cabeça aquilo que a criatura reconhece. Se a informação é diferente do que está dentro da cabeça da criatura, o filtro do ouvido identifica e barra, enviando um aviso pro cérebro: "Procura rápido aí alguma coisa parecida com isso!!!". O cérebro encontra e devolve pro filtro do ouvido o que encontrar de mais parecido com a informação desconhecida. O filtro do ouvido apaga (isso mesmo, APAGA) a informação desconhecida e replica aquela que o cérebro enviou, remetendo pra armazenamento. Exemplo? Vamos à cena:

Toca o telefone. Vou até ele e percebo que é minha mãe chamando. Atendo:
- Oi, mãe!
- (suspiro) Oi.
- Tudo bem?
- Tudo.
- Que foi, mãe, tá chateada?
- Não, nada... Coisa à toa.
- Mãezinha, conta... Que foi? O que te deixou triste?
- Tua tia me tratou mal, na casa da tua avó. Primeiro não quis falar comigo. Aí eu insisti em falar com ela, porque não tinha feito nada que merecesse "levar um gelo", e ela foi muito grosseira. Me disse que se é pra só ir lá de vez em quando e ficar bem pouquinho, não preciso mais ir.
- Puxa mãe, que grosseria! E tu, respondeste o quê?
- Eu fiquei quieta, levantei e vim embora. Tu sabes que eu não gosto de lá, que não me sinto bem, que vou obrigada.
- Mas, mãezinha, ninguém te obriga a ir lá! Se tu não te sentes bem, deixa de ir, ué! Não vá mais lá!

Pronto, o filtro do ouvido identificou algo que não reconhece: alternativa de comportamento, liberdade. Como assim, não é obrigada a ir lá? Quer dizer que não tem que ir contra a vontade a lugar nenhum? É livre, então? Responsável por si mesma e pronto? Informação desconhecida! Informação desconhecida!
O filtro do ouvido envia alerta ao cérebro: "Tenho aqui uma informação de que a nossa Unidade Humana não precisa ir onde não quer, não é obrigada a fazer o que não gosta, é livre e responde sozinha por si. Acha alguma coisa parecida aí!"
O cérebro vasculha, vasculha, e nada. Pergunta ao filtro do ouvido: "Qual a origem dessa informação?" O filtro responde: "A Unidade Humana Filha." O cérebro se esforça, procura, procura, procura... Fazer, ir, vir, ter que, tudo relacionado à Unidade Humana Filha. Finalmente, acha uma possível substituição e a encaminha ao filtro do ouvido: "Vê se serve isso aí!" O filtro do ouvido acha que serve, deleta a informação desconhecida e replica a substituição.

- Certo então, Cibele. Vou desligar.
- Beijo, mãe, tchau!
- Tchau!

Dois dias depois, novo telefonema da mãe. Atendo.

- Oi, mãe! Tudo bem?
- Tudo, tudo.
- E a vó, tudo bem?
- Não sei, tu me proibiste de ir lá, como é que eu vou saber?

Então, bem explicado o mecanismo?

2 comentários:

Raquel disse...

Oi! Passei por aqui pra te avisar que te indiquei pro prêmio Blog Dorado.
Olha lá no blog.
Beijos

Teórico disse...

EXPLICADÍSSIMO.

Acho que isso é coisa de mãe. TODAS elas possuem esse tal filtro aí, não é possível!!!