terça-feira, 9 de outubro de 2007

O revolucionóide



Houve um tempo em que ter sucesso na vida era motivo de orgulho. As pessoas batalhavam muito para conseguir estudar, trabalhar, melhorar de vida, trocar de carro, passar férias na praia, comprar um telefone, colocar os filhos no Inglês, servir uísque de boa qualidade na festa de casamento da filha...


Houve um tempo em que se olhava para essas pessoas batalhadoras e se pensava: "-Está aí um exemplo a ser seguido." Alguém mais ousado poderia dizer: "-Se ele consegue, então eu também posso conseguir." Isso era bom. Isso era edificante.


Gostávamos de ouvir histórias sobre homens de sucesso. A minha história favorita sempre foi a da Faber-Castell: Fundada em 1761, sempre comandada pela mesma família, firme e forte, mesmo diante da revolução digital. Pense bem: fabricar lápis quando todos escrevem num teclado de computador, e, ainda assim, conseguir lucro, isso é um feito e tanto. Sempre admirei Anton Wolfgang von Faber-Castell, que dirige a empresa há mais de 20 anos. Mesmo que ele não tenha saído do chão (afinal, ele herdou um tremendo negócio e uma considerável fortuna...), ele superou todas as expectativas na condução da empresa. Nunca pensei nele como um elitista, capitalista neo-liberal sanguinário, sugador de sangue dos pobres empregados e das florestas do terceiro mundo. Pensava nele como um empreendedor, responsável por muitos empregos, muitas famílias, muito desenvolvimento - tecnológico e humano.


Esse era outro tempo.


Hoje, as pessoas acham que quem tem sucesso na vida é explorador. As pessoas acham que quem conseguiu galgar ou manter uma posição de sucesso não se esforçou, não deu duro, não batalhou, não se sacrificou. Acham que gente bem posta na vida é que é responsável pela miséria, pela fome, pelas desgraças sociais que cercam a nossa sociedade.


Eu entendo que gente miserável, desiludida, faminta, marginalizada e desesperada pense assim. Quem nunca teve nenhuma chance tem o direito de se revoltar, de exigir que alguém olhe por eles, que alguém estenda a mão.


O que eu não entendo e não admito é gente de condições razoáveis, gente que teve e tem muitas chances, pregando essas idéias "revolucionóides".


Quem tem condições de levantar cedo e ir trabalhar, quem tem saúde e juventude pra conciliar trabalho com estudo, mas se queixa de que o trabalho é pesado e o estudo é puxado.


Quem tem condições de aprender, mas tem preguiça de abrir o livro, porque ele é grosso, e a linguagem é difícil (mesmo que o dicionário esteja logo ali na estante, juntando pó, do ladinho da Bíblia).


Quem tem internet em casa e passa horas no Orkut, mas nunca acessou um site de museu, de faculdade, do Governo (pra saber o que anda fazendo o seu representante...), de ONG, de pesquisa.


Quem freqüentou a escola e se formou, mas nunca leu um livro além daqueles a que foi obrigado, nunca tentou escrever seus pensamentos, nunca procurou participar de nada extracurricular.


Quem se queixa do patrão, mas nunca tentou fazer mais do que o cobrado no seu trabalho, pra, quem sabe, ser promovido por eficiência.


Quem se queixa de estar gordinho, mas não pára de comer brigadeiro e nem cogita sair pra dar uma caminhadinha.


Quem detesta o marido ou a esposa, mas nunca tentou conversar com calma, pensar nos próprios erros e resolver a relação.


Quem reclama da sujeira da cidade, mas joga papel de bala no chão.


Gente assim eu não entendo - e nem quero entender.



Um comentário:

Tita Aragón disse...

Eu também não quero!
Parafraseando o Renato Russo, o mundo é uma 'festa estranha com gente esquisita'!