quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Invasão

Sem muitas digressões filosóficas, hoje aconteceu uma daquelas coisas que me fazem questionar os benefícios da modernidade. Recebi um telefonema, proveniente de um número não identificável, logo pela manhã, no meu celular. Atendi.
-Alô?(eu)

-Alô, quem fala? É a Cibele?(voz de moça)

-Quem quer falar?(eu)

-É a Cibele?(moça)

-Quem quer falar com a Cibele?(eu)

-Tá, mas é ela ou não?(moça)

-Assim, ó: você se identifica, já que é você quem está gerando essa conversa, e diz o que quer, e depois eu me identifico, ok?(eu)

-É que eu preciso falar com a Cibele!(moça)

-Se você não se identificar eu vou desligar, certo?(eu)

-Meu nome é Denise. (Denise)

-Denise de onde?(eu)

-Denise da Empresa Tal.(Denise)

-E o que você quer falar?(eu)

-Anh... é que eu tenho um benefício financeiro destinado à Cibele, preciso falar com ela pra que ela receba. (Denise)

Ah, tá. Tô sabendo. Benefício financeiro, aham.

-Que benefício, Denise?(eu)

-É que uma aluna dela a indicou pra receber.(Denise)

-E pra que é isso?(eu)

-Pra ela adquirir conversação e fluência em Inglês.(Denise)

-Ah, então você é de uma escola de idiomas, e está fazendo um telemarketing ativo comigo, me oferecendo um pretenso desconto porque uma das minhas alunas entregou pra vocês uma lista de nomes e telefones quando se matriculou aí, certo?(eu)

-Ahn... Não, olha só, não é telemarketing...(Denise)

-Então eu vou ganhar o curso todinho de graça?(eu)

-Sim, vai.(Denise)

Ah, tá. Claro.

-Não vou precisar pagar nem o material?(eu)

-Na verdade é só o preço de custo do material, mas o desconto é de 100% na matrícula e de 50% nas mensalidades...(Denise)

-Não tenho interesse, Denise. Muito obrigada e bom dia.(eu, desligando)

Considerações:
  1. Que saudade do tempo em que as empresas nos procuravam pelo correio. Tão menos invasivo! Comprei celular pra ter um meio de me comunicar com minha família e amigos, não pra receber telemarketing. Celular é pessoal, não é uma porta aberta pra que nos empurrem coisas que não queremos e não pedimos.
  2. Como diabos uma aluna arranjou o número do meu celular? Quem forneceu meu telefone pessoal aos alunos? Eu me comprometi a manter contato com eles em nível profisional: nos horários em que estou no campus e, por boa vontade minha, via e-mail. Dar o meu celular é o auge do desprezo pela minha privacidade.
  3. Que mania desagradável as pessoas têm de pular a formalidade e agirem como se tivessem intimidade com a gente. Telefonar pro meu número e já ir perguntando se quem atendeu fui eu não é uma postura polida, pelo mínimo. O que houve com o "Bom, dia, meu nome é Fulana, falo pela empresa Tal e preciso conversar com a Sra. Cibele, é possível agora ou devo retornar em outro momento"? Já que vão invadir a nossa privacidade, o mínimo que as empresas poderiam fazer é treinar os funcionários para que o façam de maneira educada, tentando não ser inconvenientes...
  4. Eu não me identifico pra desconhecidos de jeito nenhum. Prefiro passar por grossa e arrogante a sair dando informações. Infelizmente não dá pra confiar nem nos conhecidos, quem dirá nos desconhecidos. Sim, a que ponto chegamos.
  5. Por que as empresas bloqueiam seus números para o identificador de chamadas da gente? Será que é pra que elas não recebam chamadas indesejadas de volta? Será que elas também não gostam de atender chamadas que não são de seu interesse?
  6. Vamos tentar não enganar os consumidores com propostas de falsa gratuidade? "Benefício financeiro" o escambau, "não ter que pagar nada" coisa nenhuma. Será que eles não sabem que mentir é feio? E que mentir pro consumidor dá processo? Fazfavor!
  7. Antigamente, a gente tinha um controle maior do próprio tempo. As pessoas entravam em contato nos oferecendo ou nos pedindo coisas com respeito pela nossa disponibilidade. Ao receber uma carta comercial, você a lê e retorna quando e se pode.
  8. Antes do celular e do e-mail, as exigências do trabalho se limitavam às horas que você vendia ao seu empregador. Hoje você é obrigado a conferir seu e-mail constantemente, para não perder nenhuma informação, e tem que dar retorno imediato. Pelo celular, você está disponível em qualquer lugar e horário: inclusive na noite de sábado, quando sai pra jantar com o namorado.

Eu não acho, tenho certeza: essa modernidade escravizadora e invasiva não vale a pena.

Um comentário:

Marilisa Peeters disse...

Faz um bom tempo que peerdi - e não tenho nenhuma inteção de encontrar novamente - a educação com esse tipo de "pessoas". Quando estou de bom humor espero que eles digam o nome e o nome da empresa e respondo, sorrindo, "Não, obrigada. Tchau". Um segundo antes de desligar...
Não perco tempo algum com eles.
Combinei comigo mesma que se eu quiser algum serviço EU procurarei por ele e que serviços que se oferecem não devem ser de boas famílias, já que são uns oferecidos...rsrs
Cib, tem selinho lá em casa prá ti...passa lá...bjkas